O Caminho de Casa

Autora: Yaa Gyasi
Título original: Homegoing
Tradução: Waldéa Barcellos
Editora: Rocco
Páginas: 448
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| Livro cedido em parceria com o Grupo Editorial Rocco |

Sinopse: Nascida em Gana e criada nos Estados Unidos, a jovem Yaa Gyasi tornou-se um dos nomes mais comentados na cena literária norte-americana em 2016. Seu romance de estreia, O caminho de casa, recebeu resenhas estreladas dos mais importantes jornais e revistas do país, alcançou a disputada lista dos mais vendidos do The New York Times, foi incluído na prestigiosa lista dos 100 livros notáveis do ano do mesmo jornal e arrebanhou o prêmio PEN/Hemingway de melhor romance de estreia.
Com uma narrativa poderosa e envolvente que começa no século XVIII, numa tribo africana, e vai até os Estados Unidos dos dias de hoje, Yaa mostra as consequências do comércio de escravos dos dois lados do Atlântico ao acompanhar a trajetória de duas meias-irmãs desconhecidas uma da outra, e das gerações seguintes dessa linhagem separada pela escravidão.

Existem alguns momentos que gosto de sair da minha área de conforto e desbravar novos tipos de leituras. Quando vi o lançamento da Rocco, O Caminho de Casa, a primeira coisa que pensei foi: “nossa! Uma escritora africana!”. Até então eu nem havia lido a sinopse, mas debati comigo mesma pensando em quantos escritores africanos eu conhecia e a resposta é apenas dois (Mia Couto e Chimamanda Ngozi Adichie). Fiquei incomodada de, ao longo das milhares leituras que fiz, ter lidos obras de apenas duas pessoas africanas. Por isso, li a sinopse e alguns comentários apaixonados sobre o romance de estreia de Yaa Gyasi. E foi assim que decidi conhecer Gana. 

Yaa Gyasi
Dividido em duas partes, antes e após a escravidão, o livro O Caminho de Casa tem como cenário os países Gana e Estados Unidos. A história tem início no século XVIII com as duas meia-irmãs Effia e Esi, ambas nascidas em Gana - que até então era conhecida como Costa do Ouro, uma colônia britânica. 

Effia nasceu e cresceu em uma aldeia fanti. Seu pai era Cobbe Otcher, um homem respeitado pelo vilarejo e sua “mãe” era Baaba. Baaba nunca aceitou Effia e sempre a tratou com grande violência, o que fazia com o Cobbe dispensasse o mesmo tratamento na mulher. Conforme foi crescendo, sua beleza foi aumentando e chamando a atenção de todos os homens da região, incluindo o futuro líder da aldeia, Abeeku, que a torna sua prometida assim que tiver seu sangramento e se tornar uma mulher de verdade.
Mas o ódio de Baaba por Effia é tamanho que ela não queria que a garota tivesse uma posição de prestígio como esposa do líder ou mesmo que ficasse na mesma aldeia. É assim que Baaba cria um complexo esquema para que Effia seja vendida a um dos ingleses brancos.
Então Effia se tornará esposa do mais recente governador inglês no país, James Collins, e viverá com conforto no Castelo de Cape Coast. Depois de anos longe do vilarejo, descobrirá que sua mãe biológica, Maame, morreu em um incêndio deixando apenas a filha recém-nascida para trás. 
O filho mestiço de Effia, Quey, crescerá com muito amor dos pais e grande conforto. Ele irá estudar na Inglaterra antes de voltar à Costa do Ouro para trabalhar a serviço da coroa britânica, assim como seu pai.

"A viagem de navio tinha sido desconfortável, nos melhores momentos; um suplício, nos piores, com Quey alternando o tempo todo entre o choro e o vômito. No navio, Quey só conseguia pensar em que era isso o que seu pai fazia com os escravos. Era isso o que seu pai fazia com seus problemas. Punha-os num navio, mandava-os embora. Como James tinha se sentido cada vez que via um navio partir? Era a mesma mistura de medo, vergonha e ódio que Quey sentia pela própria carne, pelo próprio desejo amotinado?"
Quey, p. 98-99

Esi, porém, terá uma história completamente diferente. Ela nasceu e cresceu em uma aldeia axânti, filha de Maame e Grande Homem Asare. Completamente amada e mimada pelos pais, Esi tem sua própria beleza e logo é prometida em casamento para o próximo líder da aldeia. Porém, sua vida é completamente alterada quando seu vilarejo sofre um grande ataque e Esi é uma das pessoas raptadas pelos desconhecidos atacantes. 
Ela então é levada para um dos calabouços do Castelo de Cape Coast, onde viverá por um tempo em condições extremamente precárias e sofrerá de diversos males com outras mulheres de diferentes idades e aldeias. Logo, Esi deverá enfrentar uma penosa viagem em um navio negreiro com destino à América e à sua nova vida como escrava do homem branco. 

"Antes de Esi sair, aquele chamado governador olhou para ela e sorriu. Era um sorriso simpático, compadecido, porém verdadeiro. Mas, pelo resto da sua vida, Esi veria um sorriso no rosto de um branco e se lembraria do sorriso que o soldado lhe deu antes de levá-la para seu alojamento; de como o sorriso de homens brancos significava simplesmente que mais maldade viria com a próxima onda."
Esi, p. 80

Castelo de Cape Coast nos dias atuais

Cada capítulo desse livro conta a história de uma pessoa. É como se fosse uma coleção de contos interligados pela genética. Isso porque a narrativa será alternada entre os descendentes de Effia e os de Esi, acompanhando uma saga familiar de sete gerações em períodos de tempo distintos e em dois locais diferentes, Gana e Estados Unidos. Será apresentado um panorama da vida dos negros nesses dois países desde o século XVIII até o XX. 

Em Gana, acompanhamos a forma como os britânicos incitaram as diferentes aldeias que compunham o país para lutarem entre si gerando mais prisioneiros e escravos, que davam muito lucro para o império. Também veremos como os próprios africanos não tinham problema algum em transformar os perdedores de uma guerra em escravos, assim como não havia questões sobre vender o excesso de escravos para os homens brancos que pagassem mais - fossem eles britânicos, holandeses ou portugueses. Ainda em Gana, é possível ver diferentes guerras, tanto pela independência quanto pela terra que acabaram gerando grande sofrimento e um número maior ainda de pessoas em situações precárias. Depois da abolição da escravidão, vemos o crescimento das plantações de Cacau - uma das principais fontes de renda do país até hoje - e também nos é apresentado um panorama mais recente que, apesar de haver diversos idiomas tribais locais, a população é obrigada a aprender inglês para conseguir estudar nas escolas locais. E, apesar de tudo, ainda há uma grande dificuldade em se encontrar qualidade de vida para todos com baixa índice de desenvolvimento humano no país.

"-O que eu sei agora, meu filho, é que o mal gera o mal. Ele cresce. Ele se transforma, de modo que, às vezes, não consegue enxergar que o mal no mundo começou como o mal na nossa própria casa. Sinto muito por tê-lo feito sofrer. Sinto muito pelo modo com que seu sofrimento lança uma sombra sobre sua vida, sobre a mulher com quem você ainda vai se casar, sobre os filhos que você ainda terá.
Yaw olhou para ela, surpreso, mas ela apenas sorriu.
-Quando alguém age errado, seja você ou seja eu, seja sua mãe ou seu pai, seja o homem da Costa do Ouro, seja o homem branco, é como um pescador que lança a rede na água. Ele fica com um peixe ou dois, que é do que precisa para se alimentar, e joga os demais na água, acreditando que a vida deles voltará ao normal. Nenhum deles se esquece de um dia foram cativos, mesmo que agora estejam livres. Ainda assim, Yaw, você precisa se permitir ser livre."
Akua e Yaw, p. 359

Imagem do filme "12 Anos de Escravidão"
Já no Estados Unidos, veremos com grande pesar a extensão do trabalho escravo no país e as rupturas familiares quando alguém era vendido ou morto por seu dono. A luta por liberdade e as tentativas de fuga para o norte do país também são representadas, assim como a Guerra Civil que - até hoje - foi a única guerra que gerou prejuízo para o Estados Unidos. Após a abolição da escravidão, nos é apresentado um retrato de homens brancos que não aceitaram que os negros são seres humanos e continuando os usando como escravos, mas dessa vez em minas de carvão. Isso foi possível ao prender negros que não tiveram a menor chance de um julgamento justo e eram condenados a anos de trabalho como penitência. Os “criminosos” que deveriam passar sete ou até dez anos trabalhando como escravos em minas de carvão, tinham como crime “olhar para uma mulher branca” ou “não parar de andar quando uma mulher branca estivesse atravessando a rua”. 
Depois conhecemos um pouco da grande migração dos negros que viviam no Sul para o bairro do Harlem, em Nova York, tentando conseguir uma vida melhor. Ainda há retratos da segregação racial e dos problemas sociais que grande parte dos negros ainda enfrenta no país.

"-Quantos anos tu tinha quando a guerra acabou?
H tentou fazer a conta, mas nunca fora muito bom com números; e a Guerra de Secessão estava no passado tão distante que os números subiam mais alto do que H conseguia alcançar.
-Não sei. Acho que treze - disse ele.
-Hum. Viu? Foi o que eu pensei. Tu era novo. A escravidão não é nada de importante pra tu, né? Se ninguém te contou, vou contar. A guerra pode ter terminado, mas não acabou de verdade.
O homem fechou os olhos mais uma vez. Ele deixou a cabeça rolar encostada na parede, para lá e para cá. Parecia cansado, e H se perguntou por quanto tempo ele devia estar sentado naquela cela."
H e desconhecido na prisão, p. 237

"-Os brancos têm escolhas. Eles podem escolher o emprego, escolher a casa. Eles podem fazer filhos negros e depois desaparecer como se nunca tivessem estado por ali, pra começo de conversa. Como se essas negras com quem eles tinham ido pra cama ou que tinham estuprado tivessem dormido consigo mesmas e ficado grávidas. Os brancos também escolhem pelos negros. Antes, eles os vendiam. Agora, simplesmente mandam pra cadeia, como fizeram com meu pai, pros negros não poderem estar com os filhos. Pra mim, é de partir o coração te ver, meu filho, neto do meu pai, aqui com esses bebês andando pra lá e pra cá no Harlem que mal sabem teu nome, muito menos conhecem teu rosto. Só consigo pensar que não é assim que devia ser. Tem coisas que você não aprendeu comigo, coisas que são do teu pai, mesmo que não o conheça, coisas que ele aprendeu com os brancos. Fico triste de ver meu filho, drogado, depois de todo o meu esforço, mas fico ainda mais triste de te ver achar que pode ir embora, como teu pai foi. É só você não parar de fazer o que faz, e o branco não precisa fazer mais nada. Ele não precisa te vender, nem te pôr numa mina de carvão para ser teu dono. Ele é teu dono desse jeito mesmo, e ele vai dizer que você é o responsável. Vai dizer que a culpa é tua."
Willie e Sonny, p. 388-389

Não quero que pense nem por um minuto que esse livro é cansativo. Eu sei que ao tratar de tantos personagens e momentos históricos diferentes, muitas pessoas podem se assustar e desistir da leitura. Mas não faça isso. A narrativa de Yaa Gyasi é muito leve para tudo o que é apresentado. Seu texto chega a ser poético em diversos momentos e eu simplesmente não consegui parar de ler até chegar ao fim da história.

De uma forma bem resumida, O Caminho de Casa é um exemplo de como é difícil nascer negro independente do local e do período. Como mulher branca, eu nunca serei capaz de compreender na totalidade todas as dificuldades e preconceitos que as pessoas negras viveram e ainda vivem. Mas posso dizer a vocês que, depois dessa obra, eu já tenho uma boa base de como é o sentimento.

"É ok chorar"

Devo dizer que esse livro tocou minha alma. Assim como a maioria dos brasileiros, minha família tem uma grande variedade genética (índios, negros, portugueses e espanhóis) e uma das minhas tias preferidas - que cuidou de mim quando eu era pequena e meus pais tinham que trabalhar - é negra. Grandes amigas minhas são negras. Então, me dói muito pensar que todas essas pessoas que amo tanto sofreram de alguma forma simplesmente por ter uma pele mais escura que a minha. 

Acredito que em tempos atuais como esses que vivemos, títulos como O Caminho de Casa deveriam ser leituras obrigatórias em todos os países. Vemos absurdos como a marcha pela supremacia branca na cidade de Charlottesville, no estado americano Virgínia, que resultou em mortes simplesmente pelo ódio do que é diferente do homem-branco-hétero-privilegiado. Pessoas que não devem compreender quão mais difícil e sofrido é para uma pessoa negra conseguir terminar os estudos e “melhorar de vida”. O mesmo vale para todos os brasileiros que ainda não aceitaram a necessidade de cotas especiais para indivíduos negros.

Recomendo a leitura de O Caminho de Casa para você, que é um ser humano. Independente da sua cor de pele, do seu gênero ou da sua origem. Simplesmente leia.  




7 comentários :

  1. Oi Carolina, ainda não tinha ouvido falar do livro mas achei a resenha interessante e mesmo não gostando tanto de histórias que intercalem várias passagens de tempo, o livro parece apresentar períodos difíceis de escravidão e imagino que seja importante ler e emocionante de acompanhar. Curti a resenha e se tiver a oportunidade vou querer ler *__*

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  2. Olá, livros que abordam a escravidão nunca ficam obsoletos, dada a extensa vertente do tópico. A história aqui aparenta ter um teor crítico, mas apesar disso também consegue nos emocionar. Beijos.

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  3. Olá !!
    Ainda não conhecia o livro mas parece ser uma escrita maravilhosa.
    Agora não me lembro de ter lido algum livro de escritor africano, acho que nunca li.
    Que história interna e real.Bem desenvolvida que aborda um tema tão complicado como o preconceito.

    Já anotei esse livro para ler.

    Bjos

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  4. Oi Carolina,
    Não tenho experiência com autores africanos e eu não tinha percebido isto até começar a ler sua resenha. Se a vida do negro hoje ainda apresenta dificuldades em alguns lugares e situações, não consigo nem imaginar como era na época da escravidão ou logo após a abolição. O caminho de casa será uma viajem através do tempo pelas dificuldades, preconceito e luta e, acredito, a autora sabia, exatamente, onde queria chegar com este livro. De uma forma complexa ela leva o leitor pela história não só de duas personagens, mas de tudo que elas representam e das gerações que vieram. Acho que se eu fosse só pela sinopse meu interesse em conhecer a trama não seria tão grande como foi após entender um pouco o que Yaa quis mostrar com este romance e é por isso que vou adiciona-lo a minha lista de leitura e espero que logo possa adquirir um exemplar.

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  5. Oi Carol, tudo bem?
    Eu parei pra pensar e também nunca li nada de uma autora africana. Morro de vontade de ler algo da Chimamanda e espero ter a oportunidade. Achei super interessante essa estória, porque podemos ver os aspectos da cultura africana através da escrita. Já quero ler este livro.
    Beijos

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  6. Oi, Carolina!

    Que livro lindo, estou louca para lê-lo! É ótimo sair da zona de conforto e ler outros tipos de livro. Saber que, mesmo com tantas informações, descrições e personagens, a história segue leve, fluida e poética, me deixou ainda mais empolgada para conhecer essa autora.
    Adorei a dica!

    Beijocas.
    http://artesaliteraria.blogspot.com.br

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  7. Oi, Carol!
    Agora que parei para pensar, conhecer autores africanos eu conheço, mas acho que não li nenhum deles.
    Mas quero remediar isso com O Caminho de Casa. Parece ser uma leitura pesada, linda, intensa e interessante.
    Adorei saber que cada capítulo é uma história, um personagem e parecer uma colagem de contos, mas todos interligados de certa maneira.
    Obrigada pela dica.
    Sei que vai entrar no meu coração.
    <3

    Beijoooos

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