#Literatura nas Telas: Dom Casmurro vs. Capitu




Como sabem, curso Letras. E uma das coisas mais incríveis no curso é poder notar meu amadurecimento como leitora. Porque é isso que fazemos: lemos, lemos e relemos, para podermos analisar e escrever a respeito de grandes autores que viveram há duzentos anos. A sobrevivência de certas obras ainda consegue me deixar intrigada. Por que ainda lemos - para citar alguns ainda mais distantes - Odisseia, os contos de fadas, Romeu e Julieta? O que existe nessas histórias que as fazem sobreviver a séculos de desenvolvimento tecnológico e mudanças de estilos narrativos? 

Uma boa resposta, com a qual eu me acostumei, é a de que esses livros possuem peculiaridades, temas, personagens, questões, cujas respostas ainda não satisfazem o ser humano. As grandes aventuras mitológicas de Ulisses, os elementos mágicos e trágicos de histórias que conhecemos até hoje, ou então, o amor impossível dos amantes desafortunados, são temas que lidam além da aventura, do maravilhoso ou do amor. Cada obra que sobrevive o faz por conta de dois motivos: em primeiro lugar, por causa da edição de um novo volume; em segundo, por conta da forma como toca seus leitores.

O que pode existir de tema universal na história de um velho carrancudo, então?, você pode estar se perguntando. Admiráveis leitores, Dom Casmurro deve ter a história de amor mais louca que já existiu. E um dos maiores mistérios da literatura brasileira até hoje: Capitu traiu ou não Bentinho? O que nos impressiona no livro de Machado não é a história de seu Dom, mas a forma como ele a narra: a escolha de palavras, a estruturação da narrativa e dos capítulos, até mesmo as personagens secundárias que estão lá refletindo a personalidade do protagonista. Enfim, são esses vários elementos que circundam a história que a faz ser completamente intrigante.



Como muitos aqui, fui forçada a ler um clássico enquanto estava no ensino médio. Eu gostei? Não. Eu tinha um bloqueio muito forte com clássicos naquela época. Ai, adivinhem o que eu faço na universidade? Eu releio a maioria deles. Graças ao cosmos, eu já me entrego à obra com outros olhos; com Dom Casmurro não foi diferente. Um seminário a respeito de um texto crítico (colocar o título do artigo) de Dom Casmurro nos foi apresentado. Minha amiga e eu pulávamos da carteira com frequência para defender a inocência de Capitu. A professora comentou, depois, "Achei que vocês invadiriam a apresentação para poder defender a Capitu".
 
Bom, eu não invadi a apresentação de ninguém, mas me viciei nessa história e vim dividi-la com vocês!

Dom Casmurro, de Machado de Assis


Para quem não conhece a história, falarei brevemente a respeito. Machado de Assis publicou Dom Casmurro em formato de folhetim, ao longo de 1898; ou seja, diariamente, um capítulo saia no jornal lll, o qual criara uma coluna somente para Machado. O autor, diferente de seus contemporâneos, conheceu em vida o sucesso, pois a  venda da compilação da história em forma de livro foi um estrondosa para a época do lançamento, 1900.

Dom Casmurro é um senhor taciturno, fechado, no fim de sua vida, que decidiu escrever uma autobiografia. Na juventude, ele foi Bento Santiago, Bentinho, para os íntimos, mas isso foi há muitos anos.
"Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também. Quis variar, e lembrou-me escrever um livro." Dom Casmurro, p. 17
Ele narra sua história de vida, como foi obrigado a entrar no seminário para cumprir uma promessa que a mãe tinha feito, quem foi a garota que o encantou e, posteriormente, destruiu seu coração. Ele nos conta sobre sua mãe, seu tio, sua prima e o agregado, José Dias, talvez o personagem mais interessante da obra! E todos os detalhes que lhe foram convenientes para criar sua obra prima. e nos convencer de que todas aquelas memórias, mesmo quando nebulosas, são a mais absoluta verdade.
Eu confessarei tudo o que importar à minha história. [...]. Ora, há só um modo de escrever a própria essência, é conta-la toda, o bem e o mal. Tal faço eu, à medida que me vai lembrando e convido à construção ou reconstrução de mim mesmo.” Dom Casmurro, p. 135
Bentinho descobre o amor de maneira incomum: pela boca de terceiros. Quando se dá conta de que ama Capitu, todo seu mundo é alterado. Ele não quer entrar para o seminário ao qual sua alma foi prometida, afinal, planeja um futuro ao lado de sua amiga de infância. Apesar de jovens, os dois prometem que se casarão apenas um com o outro. Isso, no entanto, não é o suficiente para acalmar a imaginação extremamente fértil de Bentinho. Ele tem certeza de que Capitu está feliz, seguindo com sua vida, enquanto ele está estudando latim e teologia.
“Cantei em duo terníssimo, depois um trio, depois um quatuor... Mas não adiantemos; vamos à primeira tarde, em que eu vim a saber que já cantava, porque a denúncia de José Dias, meu caro leitor, foi dada principalmente a mim. A mim é que ele me denunciou.” Dom Casmurro, p. 31
Uma história de vida comum, daríamos, para ser considerada uma grande obra literária, certo? e é aí que entra o talento de Machado de Assis: tornar extraordinárias histórias comuns. A falsa sensação de que seja Bentinho narrando sua história e a percepção de que é Dom Casmurro que enxerga todos os causos de sua vida juvenil, dá o tom irônico e único de um narrador machadiano.
"O meu fim evidentemente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo." Dom Casmurro, p. 17
Ao nos colocar sob essa situação: a de só conhecer a história sob o ponto de vista de um velho amargurado, não temos - como leitores - recursos para julgar aquilo que nos é contado. Por isso, pela loucura do Dom, somos persuadidos a acreditar que Capitu realmente o traiu com seu melhor amigo, Escobar. Acreditamos que as lágrimas que Capitu derrama são por amor a alguém que não seu marido. Porém, não podemos acreditar somente nisso. Devemos, como leitoras, considerar a possibilidade de que Capitu tenha sido calada. Ou melhor, que sua voz tenha sido recortada, para que nos fosse mostrada somente as partes que corroboram a teoria do Dom, como já mencionado.
“Como vês, Capitu, aos quatorze anos, tinha já ideias atrevidas, muito menos que outras que lhe vieram depois; mas eram só atrevidas em si, na prática faziam-se hábeis, sinuosas, surdas, e alcançavam o fim proposto, não de salto, mas aos saltinhos. Não sei se me explico bem.” Dom Casmurro, p. 47

Ou seja, é uma história de amor ordinária, que não nos interessaria hoje em dia, mas eu convido vocês a lerem-na, mesmo assim. Melhor ainda se o fizerem com olhos espertos, ligeiros - como os de Capitu -, para captar as pistas que Machado deixou para nós. A beleza desse clássico está ai, então, não? A eterna dúvida e como ela nos é apresentada.
 

Capitu, a minissérie


A série foi produzida pela Globo e transmitida em 2008. Eu tentei encontrar DVDs e CDs, mas não consegui. Assisti aos episódios pelo Youtube e adorei cada segundo! São cinco episódios, com cerca de 40 minutos cada. Uma das coisas que mais chama a atenção é o estilo escolhido para transmitir a história: tudo é teatral. Os cavalos são de papelão, as portas são seguradas pelas criadas, não existem paredes, a atuação muitas vezes é pausada e muito mais expressiva. a câmara escolhe ângulos muito interessantes para filmagens, o jogo de luz é sensacional. E a trilha sonora é melhor coisa que você vai ouvir hoje.


O primeiro episódio cobre os primeiros 25 capítulos do livro. Eu nunca vi nada tão fiel. A produção utiliza vinhetas As falas, a narração, até mesmo as pequenas palavras são reproduzidas do livro para a tela. Podemos dizer que se trata de um belo filtro: as melhores citações de Machado ganham vida ao serem interpretadas por atores tão talentosos! Nele, conheceremos todos a família de Bentinho. Veremos como são as relações entre eles e o momento da descoberta de Bentinho a respeito de seus sentimentos por Capitu.
“Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem. Se ainda o não disse, aí fica. Se disse, fica também. Há conceitos que se devem incutir na alma do leitor, à força de repetição” Dom Casmurro, p. 67-68

 
O segundo episódio é um resumo de esperanças: começa com Bentinho dando uma missão a José Dias, convencer dona Glória, sua mãe, de que não há necessidade de ordená-lo padre, passa pelo desabrochar da paixão entre Bentinho e Capitu, e termina com muitas lágrimas de despedida, porque - afinal de contas - Dona Glória prometeu a Deus um padre.
"Não durou muito nossa despedida, mas, aos quinze anos, tudo é infinito." Dom Casmurro 
No entanto, gostaria de comentar a respeito de uma das cenas mais lindas desse episódio, a cena do beijo. Ou, o capítulo "O Penteado". As repercussões do final dessa cena são as que fundamentam ainda mais as ações calculadas e dissimuladas de Capitu, porém, convenhamos: o que a garota deveria ter feito?! A mãe dela entrou no quarto, gente...
 “Mas enfim, os cabelos iam acabando, por mais que eu os quisesse intermináveis. Não pedi ao céu que eles fossem tão longos como os da Aurora, porque não conhecia ainda estia divindade que os velhos poetas me apresentaram depois; mas, desejei penteá-los por todos os séculos dos séculos, tecer duas tranças que pudessem envolver o infinito por um número inominável de vezes. Se isto vos parecer enfático, desgraçado leitor, é que nunca pesteastes uma pequena, nunca pusestes as mãos adolescentes na jovem cabeça de uma ninfa...” Dom Casmurro, p. 73
 
O terceiro episódio nos apresenta Escobar, o colega de seminário de Bentinho. E alguém que o seguirá por muitos e muitos anos no futuro. É neste episódi que ocorre um dos momentos mais importantes para interpretações do mistério: Capitu traiu ou não? Lembrando-nos de Helen Caldwell, a estudiosa dá outra roupagem a Dom Casmurro, nominando-o Otelo brasileiro! Nessa cena, fica clara a loucura e o ciúme que o acometem. E tudo porque Capitu olhou! para outra pessoa, no caso, um cavaleiro.
"Chamava-lhe perversa. Duas vezes deu por mim mordendo os dentes, como se a tivesse entre eles.
[..]
A vontade que me dava era de cravar-lhe as unhas no pescoço, enterrá-las bem, até ver-lhe sair a vida com o sangue." Dom Casmurro, p. 145
É a primeira vez em que vemos Bentinho narrando uma de suas memórias, tarefa até então de sua versão mais velha, o consagrado Dom Casmurro. Este, por sua vez, a cada cena, parece transformar-se, ficar mais jovem. Quase como se a infância, sua inocência, fosse o bastante para contrastar com sua figura parruda e velha. Ou seja, ao envelhecer, Bentinho se aproxima cada vez mais de sua versão casmurra.

O quarto episódio mostra o desabrochar da amizade entre Escobar e Bentinho, o estreitar de laços. E eu juro que fiquei esperando esses dois se beijarem, apesar de acreditar que Escobar possa ter interesses na mãe de seu amigo!

"- Escobar, você é meu amigo, eu sou seu amigo também aqui no seminário você é a pessoa que mais me tem entrado no coração, e lá fora, a não ser a gente de família, não tenho propriamente um amigo." Bentinho, p. 147
Este é outro ponto de interesse na produção machadiana: será que a inocência de Bentinho só é vista pelos leitores (e pelos seus expectadores) por que os personagens ao seu redor são tão calculistas? Capitu e Escobar são descritos pela sagacidade dos olhos. Fiquem atentos! É a partir desse ponto que tanto o livro quanto o seriado começam a dar passos largos. Eu não falarei, obviamente como a série trabalha tudo isso, ou como o livro segue, porque - né - leiam o livro e assistam à série!




Sou extremamente grata ao cosmos pela oportunidade de reler Dom Casmurro. Com certeza, ganhou um espaço no meu coração-leitor, ao lado de Capitães da Areia. Assim como a minissérie está do lado daquele filme!
 


11 comentários :

  1. Eu li Dom Casmurro e Capitães da Areia para a escola, e gostei mais do segundo do que do primeiro. A narração de Dom casmurro é bem complicada e realmente irônica, como se fosse algum tipo de diário. Eu acredito que Capitu não o traiu, e que ele estava apenas paranoico demais porque ela se mostrava mais independente do que deveria ser pra epoca. Adorei saber a sua opinião e conhecer a série. Queria muito poder fazer letras no futuro também.
    Um abraço!

    http://paragrafosetravessoes.blogspot.com.br/

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  2. Oi Izabela, eu tenho que confessar que ainda tenho um certo bloqueio com clássicos, leio muito poucos e acho que esse fato se deve a linguagem utilizada que é diferente da que usamos normalmente, o que torna a história um pouco cansativa pra mim. Assim tenho que dizer que não li Dom Casmurro, nem no colégio, contudo a análise que você fez da obra e da série está maravilhosa e eu terminei de ler com vontade de conhecer a história e tirar minhas próprias conclusões sobre Bentinho e Capitu. Parabéns! gostei muito do post ;)

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  3. Olá! Li várias vezes esses livros, vi a série tbm, é mto boa, recomendado!
    Acho que foi um dos primeiros livros desse gênero q li...
    Bjs

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  4. Oi, Izabela!!
    O que posso dizer que sua resenha ficou maravilhosa e que adorei a forma que você consegui passa para o leitor sua visão desse clássico tão extraordinário que é Dom Casmurro. Gostei da indicação vou reler esse clássico e também vou assistir a minissérie.
    Beijos

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  5. Meu bloqueio para clássicos ainda não se desfez, não consigo, infelizmente, ler uma obra desse estilo e não me sentir com tédio.
    Respeito a todos leitores que gostam, mas ainda não consegui me sentir bem lendo um desses.
    Fiquei completamente encantada com o tema abordado aqui e como você descreveu muito bem seus sentimentos.
    Você conseguiu me deixar instigada, confesso.
    Quem sabe mais frente não consiga dar uma chance a obras clássicas, como Dom Casmurro?
    Não assisti nada relacionado também, mas fiquei interessada pela minissérie abordada.
    Beijos,
    Caroline Garcia

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  6. Também tive que ler esse e outros livros no ensino médio e também não gostei nem um pouquinho rs, faz muitos anos isso, nem lembro direito da historias, as vezes acho que tenho que fazer uma releitura, pois já estou com outra mente em relação as leituras. Mas a dúvida em relação a traição de Capitu se houve realmente, existe até hoje, na época perguntamos ao professor e ele disse fica a critério de cada um se ela traiu ou não. Não sabia da série gostaria de assistir deve ser muito boa e acho que dá para ter uma outra visão da historia.

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  7. Olá.
    Claro que também fiz a leitura desses clássicos, na escola. Mas eu gostava, na realidade, mesmo sem entender também a história e sua complexidade, me via envolvida de tal forma, que lia com muito prazer, sem ser por mera obrigação. Mas agora, a leitura desses livros maravilhosos, flui de outra forma, com outra visão e o gosto é ainda maior. Amei seu texto, parabéns, você escreve excepcionalmente bem! A série creio que ainda não assisti, mas com certeza dica anotada. Maravilhoso post. Beijos.

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  8. Não sou fã de clássicos brasileiros,o único que já li foi o Cortiço.
    Tentei ler o Capitães da Areia ,porém não cheguei a termina-lo.
    Já tinha visto sobre esta história,uma amiga minha leu o livro e acreditava fielmente que a Capitu foi leal a Bentinho.Acho triste a história pois ele chegou ao ponto de afastar seu filho e a esposa (pois achava o filho parecido com amigo),e viver só,isolado...

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  9. Daria tudo para perguntar para o Machado de Assis se ele tem uma resposta a essa grande dúvida da literatura brasileira.
    Cara, ela traiu ou não? E não me venha com uma resposta estilo "eu não sei" que não serve.
    Adorei o post, Iza. Tão completo, ponderado, com algumas reflexões que nunca tinha feito.
    Também li no ensino médio e quase não lembro, sendo bem sincera. Já amava ler nessa época, mas os clássicos foram empurrados goela abaixo.
    Acho que vou reler.
    Eu não vi a minissérie, mas todo mundo fala que foi linda.

    Beijoooos

    www.casosacasoselivros.com

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  10. Estou no ensino médio e li Dom Casmurro no primeiro semestre, foi uma das melhores leituras do ano!!! Gostei demais da forma como o Machado desenvolveu a história, é simplesmente genial. E também sou uma advogada fiel de Capitu rsrs.
    Ainda não assisti a minissérie, muito por conta de tempo, mas pretendo conferir ainda esse ano! Meu professor passou um pedaço duranta a aula e adorei os ângulos e todo o clima criado.
    Beijos

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  11. Oi Iza!
    Antes mesmo de ler o post já sabia que tinha sido escrito por vc. Amei! <3
    Então, eu li Dom Casmurro já faz um tempinho e não gostei. Achei a leitura arrastada, não consegui me envolver... foi um desastre total. Tinha 17 anos na época e peguei raivinha do Machado de Assis (mas passou depois de Brás Cubas - hahaha).
    Já a minissérie eu assisti e gostei muito! Tudo me encantou, achei o trabalho incrível. E continuo achando que ela não traiu Bentinho coisíssima nenhuma.
    Ainda pretendo reler o livro, afinal serão percepções diferentes. Espero tirar esse mal estar que há entre eu e ele.
    Beijos

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